segunda-feira, 28 de março de 2011

Guarde a xereca

Dediquei-me, na noite de ontem, a ler a Primeira Epístola de Pedro. À medida que ia lendo os capítulos e assuntos tratados, era-me impossível não lembrar dos inúmeros testemunhos dos primeiros cristãos. Quão diferente é o Cristianismo de hoje! Vejamos um flagrante:

- Semelhantemente [o escritor falava anteriormente sobre a submissão que os homens devem ao rei e ao patrão - ele evoca aqui o mesmo padrão de semelhança para as mulheres] vós, mulheres sede submissas a vossos próprios maridos, para que também, se alguns deles não obedecem à Palavra, pelo procedimento de suas mulheres, sejam ganhos sem palavra, considerando a vossa vida casta, em temor. (1 Pedro 3:1, 2)

Será que o modelo original da mulher cristã era ficar em silêncio e guardar a periquita? É o que indica o contexto. No segundo capítulo, Pedro já tinha evocado o princípio da abstinência:

- Amados, peço-vos como a peregrinos e forasteiros, que vos abstenhais das concupiscências carnais que combatem contra a alma. (2:11)

Que valor tinha para os cristãos a abstinência e a castidade? Pedro faz menção:

- Igualmente vós, maridos, coabitai com elas com entendimento, dando honra à mulher, como vaso mais fraco; como sendo vós os seus co-herdeiros da graça da vida; para que não sejam impedidas as vossas orações. (3:7)

Que entendimento os cristãos primitivos tinham concernente à vida sexual no casamento? Era segundo o princípio da abstinência. Se o casal é dado aos desejos sensuais, as orações são impedidas de chegar a Deus, ensinavam.

Vejamos agora, para bem nos acercarmos, o testemunho de alguns dos principais cristãos da igreja das origens:

- ... às mulheres lhes encarregavam a execução de todos seus deveres numa consciência sem mancha, apropriada e pura, dando a seus próprios maridos a consideração devida; e lhes ensinavam a guardar a regra da obediência, e a reger os assuntos de suas casas com propriedade e toda discrição. (Clemente de Roma, 30-100 d.C.)

Clemente exortava:

- Guiemos a nossas mulheres para o que é bom: que mostrem sua formosa disposição de pureza; que provem seu afeto sincero de bondade; que manifestem a moderação de sua língua por meio do silêncio; que mostrem seu amor, não em preferências partidárias, senão sem parcialidade para todos os que temem a Deus, em santidade.

Policarpo, no ano 135, escreveria tais recomendações:

- Ensinemo-nos primeiro a andar no mandamento do Senhor; e depois a nossas esposas também, a andar na fé que lhes foi dada e em amor e pureza, apreciando a seus próprios maridos em toda verdade e amando a todos os homens igualmente em toda castidade, e criando a seus filhos no temor de Deus.

A castidade e a abstinência sexual, mesmo no casamento, eram tidas em grande apreço pelos primeiros cristãos. Polícrates, no ano 190, fez os elogios:

- Falo de Felipe, um dos doze apóstolos, o qual foi repousar em Hierápolis. Falo também de suas duas filhas que chegaram à velhice sem casar-se. Sua outra filha também [casada], que passou sua vida sob a guia do Espírito Santo, jaz em Éfeso.

Seria suficiente ler tais aportes para sabermos acerca da sexualidade dos primeiros cristãos? Sim, pois, de Clemente de Alexandria, em 195, encontramos tal declaração: "Suas esposas foram com eles [apóstolos], não como esposas, senão como irmãs..." O que confirma o mandamento expresso de Paulo em 1 Coríntios:

- Que os casados sejam como se não fossem casados. (7:29)

Você vê esse comportamento nos ditos cristãos de hoje? Não, não se vê. Antes, os pastores dão incentivo exarcebado a que os jovens se casem tendo em vista o "aumento do rebanho". Mas quão diferente eram os primeiros cristãos! Justino Mártir, no ano 160, exaltava-se:

- Entre nós há muitos e muitas que, feitos discípulos de Cristo desde a meninice, permanecem virgems até os sessenta e os setenta anos... e eu me glorio que se os posso mostrar de entre toda raça humana!

E Atenágoras, em 175, repetia o que tinha aprendido dos apóstolos: "O mero pensamento e desejo de coito nos aparta da comunhão com Deus." O próprio Atenágoras testemunharia acerca dos primeiros cristãos:

- E até é fácil achar entre nós muitos homens e mulheres que chegaram virgens até sua velhice com a esperança de atingir assim uma maior intimidade com Deus.

O cristão Metodio, do ano 290, dizia ter o verdadeiro gozo:

- A ti consagro minha pureza, ó Divino Esposo! E vou a teu encontro com o lustre brilhante em minha mão. Abandonei os tálamos e palácios de casamentos terrenos por ti, ó Divino Mestre! Resplandecente como o ouro; a ti me acerco com minhas vestimentas imaculadas, para ser a primeira em entrar contigo na felicidade completa da câmara nupcial.

Interessantes palavras de Metodio:

- Esqueci minha pátria arrastada pelo encanto ardente de tua graça, ó, Verbo divino! Esqueci os coros das virgems colegas de minha idade e a felicidade de minha mãe e de minha raça, porque tu mesmo, tu, ó, Cristo!, és tudo para mim.

Que pensais agora a respeito dos primeiros cristãos? Não dá, evidentemente, para compará-los com os ditos cristãos de hoje, não é mesmo?

E que tal chupar essa manga? É Justino Mártir, no ano 160, quem diz:

- Não contraímos casamento senão para a procriação e educação dos filhos ou, se renunciamos a ele, vivemos em perpétua continência.

Difícil de chupar?

Você acabou de ver apenas uma palhinha do gritante distanciamento que se encerra entre a Igreja das Origens e a atual Cristandade. Então, caro amigo leitor, da próxima vez que um desses ditos cristãos lhe vier com um "sermão de moral", lembre-se dessa mensagem: é um ótimo colírio para os olhos dos cegos e hipócritas.


Paz da História

1 comentários:

Luis Furlan disse...

Capitão, impressionante este texto!
Obrigado, amigo.